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design, cultura e política da classe trabalhadora brasileira

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Antropologia

Livros lidos são menos valiosos que os não lidos

Eu tenho um monte de livro que nunca li. Só pra escrever esse texto aqui eu comprei dois que não li inteiros – e mais um terceiro que já estava no meu carrinho, mas esse não tem a ver com o texto, eu só aproveitei para comprar junto. Antes eu me sentia muito mal por isso. Era uma mistura de culpa por ser "consumista" e vergonha de nem sequer ler aquilo que eu estava consumindo, como se eu soubesse que estava comprando só pra satisfazer um desejo de ser alguém mais inteligente.

Desde criança, eu achava que possuir muitos livros era sinônimo de saber todos aqueles assuntos. Minha irmã é nove anos mais velha do que eu e nós fomos as primeiras pessoas a começar a trazer livros para dentro de casa. Ambos tivemos uma ascensão social pelo estudo – e por políticas públicas de investimento em educação e acesso à cultura –, em comparação com nossos pais e avós. Em dado momento, quando comecei a trabalhar e fazer faculdade, comprar livros se tornou um hábito. Não necessariamente ler livros. Comprar.

Estou acumulando livros não lidos desde então, vários desses eu nem tirei do plástico ainda.

Mas foi só recentemente que me questionei: “Se essa pilha de livros não lidos me geram culpa, por que eu continuo comprando?” Parece meio irracional. Mas não é. Na perspectiva de Pierre Bourdieu, a hierarquia socialmente reconhecida das artes e dos saberes corresponde à hierarquia social dos seus consumidores, o que faz com que gostos e conhecimentos funcionem como marcadores sociais. Em algum momento eu aprendi que ler livros e ser visto como alguém “estudado” representam um prestígio na sociedade. Se livro é visto como coisa de gente culta e bem sucedida, logo, ter muitos livros vai me fazer ser assim também.

Mesmo com todas as dificuldades financeiras, meus pais sempre incentivaram e trabalharam para construir as condições que permitiram que minha irmã e eu nos dedicássemos ao estudo que eles nunca tiveram. Se eu quisesse “ser alguém”, eu tinha que estudar – e os livros representavam isso. Entender isso me ajudou a compreender por que ainda guardo aquela empolgação de comprar um livro novo. De certa forma que eu não entendia até há pouco, ter livros em casa me fazia sentir mais inteligente, mais preparado e merecedor — seja lá do quê. Só sei que livro era coisa de gente inteligente.

Quando entrei na faculdade pelo ProUni e comecei a trabalhar num dos bairros mais caros de São Paulo, há uns dez anos, achei que tinha chegado lá. Que ter conquistado aquele espaço era o suficiente. Mas percebi bem cedo que estar lá não significava pertencer àquele lugar. Eu podia até usar o vocabulário certo, comprar os mesmos livros ou frequentar os mesmos lugares, e ainda assim alguma coisa me lembrava constantemente que eu não era dali.

Foi só nos últimos anos, quando tive contato com o texto de Bourdieu nas discussões de Antropologia e com um aprofundamento nos estudos políticos, que eu entendi o que estava acontecendo. Quem nasce com acesso ao capital cultural pode comprar livros caros e edições importadas (bastante comuns na área de design) só para decorar a casa, folhear de vez em quando e deixar lá na estante, sem qualquer culpa, para consultar quando quiser. Eu, não. Eu conquistei todo meu capital cultural por meio do meu esforço e da minha família, da educação pública e de políticas que me deram acesso ao que antes era negado a nós.

Essa trajetória, reflito hoje, me fez criar uma relação tensa com os estudos; como se eu precisasse provar o tempo todo que mereço estar onde estou, pois, “vejam só, eu li esses livros que vocês leram também!”.

Isso talvez faça sentido como fenômeno social mais amplo: uma pesquisa recente apontou que mulheres negras lideram o avanço no consumo de livros no Brasil, respondendo por 30% do total de consumidores e representando metade das mulheres que compram livros no país, com forte presença entre pessoas da classe C.

Enquanto eu escrevia esse texto, pude colocar em palavras muitas coisas que existiam só lá no fundo da mente e também pude perceber que esse meu desconforto com o acúmulo "inútil" de livros, na verdade, se dá por causa dos marcadores de classe do meu meio de origem que ainda sobrevivem no meu habitus – e, assim como eu, pessoas que vieram de contextos semelhantes talvez passem pela mesma coisa.

um pequeno recorte da minha antibiblioteca
um pequeno recorte da minha antibiblioteca

Só que hoje eu rejeito essa ideia imposta a mim e aos meus semelhantes de que devemos constantemente nos provar merecedores. Eu posso, sim, gostar de comprar livros só por ter gostado do tema, da capa ou da pessoa que escreveu. Só por achar interessante mesmo, e não pra conquistar uma promoção no trabalho ou ser aceito nos espaços.

Esses livros não representam mais meu sentimento de vergonha, procrastinação ou incapacidade de ler o que comprei. Eles representam tudo aquilo que eu ainda posso aprender sobre os temas que me fascinam e todas as reflexões – como essa – que poderei um dia fazer.

Continuar comprando livros, hoje, é muito mais que um hábito consumista. É uma forma de manter vivo esse meu interesse na vida, afinal, foi a curiosidade em entender o meu entorno, a conhecer mais o Outro, a mim mesmo e a luta dos que vieram antes de mim que, de verdade, me trouxeram até aqui.


Referências

  • BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Tradução de Daniela Kern e Guilherme J. F. Teixeira. 2 ed. Porto Alegre: Zouk, 2011.
  • DUARTE, Alice. A antropologia e o estudo do consumo: revisão crítica das suas relações e possibilidades. Etnográfica, 2010. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/113238/2/72239.pdf (abre em nova aba)
  • ABUJAMRA, Antônio. Mude, mas comece…. YouTube, 18 jan. 2004. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=A2hk9jtL7WA (abre em nova aba). Acesso em: 08 abr. 2026.